A proposta deste trabalho é analisar como as narrativas relacionadas a pandemia de Covid-19, feitas por interlocutores e interlocutoras de classes populares, subvertem as noções e marcadores de temporalidades empregados para entender esse evento. A pesquisa, ainda em andamento, desenvolvida em um bairro da periferia de Porto Alegre, Capital do Rio Grande do Sul (BR) , tem como direcionamento mais amplo compreender quais os impactos da pandemia de Covid-19 na vida das pessoas que vivem na região. Desse modo, a atenção ao trabalho, as relações familiares, as rupturas e reconstruções do cotidiano se mantêm no horizonte de pesquisa. A partir de conversas informais sobre a vida durante e após o término da emergência de saúde, procuro entender como os interlocutores e interlocutoras percebem as mudanças que ocorreram em suas vidas nos últimos três anos, considerando a pandemia como norteadora dessas mudanças. Nesse sentido, dois fatores principais foram levados em consideração para a “escolha” das narrativas: em primeiro lugar, pessoas que tiveram infecções graves de Sars-Cov-2; em segundo aquelas que perderam algum familiar em decorrência da doença. Levando em consideração as alterações que a pandemia causou no modo de vida das pessoas, tanto no que tange às perdas – familiares, amigos, pessoas próximas, relações sociais em geral – quanto a necessidade de reconstruir a vida, no que temos nomeado de pós-pandemia, se faz necessário decompor, a partir da experiência em primeira pessoa, esses eventos. Tanto para reconhecer as diferenças constitutivas das trajetórias, quanto para descolonizar nossos marcadores de temporalidade. Ou seja, o exercício proposto por esta etnografia é pensar essas modalidades a partir do cotidiano, onde as vidas são vividas. A partir da etnografia e das observações de campo que tenho desenvolvido a aproximadamente um ano no bairro, procuro entender essas noções de evento e pós-evento considerando suas implicações na vida cotidiana dos interlocutores e interlocutoras. De certo modo, neste trabalho busca-se compreender quando uma pandemia começa e quando e como ela termina; quais marcadores empregados pelas pessoas para narrar essa experiência corporificada que nomeamos de pandemia de Covid-19. Por fim, questiono como nossos qualificadores temporais podem ser repensados a partir dessas trajetórias singulares.