Ao longo de junho, julho e agosto de 2023, um grupo de habitantes da província de Jujuy bloquearam as vias de acesso da região da Quebrada de Humahuaca até a fronteira com a Bolívia em La Quiaca. Os protestos foram impulsionados diante da emergência da aprovação de reformas constitucionais que poderiam colocar em risco o território dos povos originários junto à facilitação da entrada e exploração de recursos provocadas por indústrias de lítio. A Quebrada de Humahuaca, conceituada como “corredor cultural” e tomada como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 2003, sofreu nestes meses um período de intensa controvérsia. De um lado, empresários do ramo hoteleiro e turístico afirmaram que os protestos atrapalhariam a passagem de visitantes ao longo das férias de inverno. Entraram em cena também discursos que negavam a própria existência de povos originários na região e questionavam o uso das bandeiras andinas, a wiphala, pelos manifestantes, atestando que a bandeira do país seria “unicamente” branca e azulada. Como contraponto, manifestantes dos povos originários registraram e compartilharam discursos de suas lideranças e suas vivências em cada bloqueio de rodovia. Também apontaram os atos de violência provindos da polícia e de certos grupos de turistas. Diante da truculência e dos posicionamentos do governador da província, Gerardo Morales, um grupo de manifestantes decidiu partir em uma longa caminhada até a capital, Buenos Aires para denunciar as violações de direitos em curso em Jujuy. Anunciaram que esse seria o “Tercér Malón de la Paz”. Ao longo destes acontecimentos, estive em pesquisa de campo na Quebrada de Humahuaca, registrando parte dos efeitos das manifestações na região, especialmente no que concerne às reações dos moradores. A intenção deste trabalho e da apresentação oral é compartilhar algumas das reflexões advindas do campo e de extensa pesquisa aos materiais publicizados em redes sociais em canais de mídias alternativas, voltadas aos discursos e direitos dos povos originários. Entrecruzarei neste debate as práticas neoextrativistas com peculiaridades próprias das populações que compõem a Quebrada de Humahuaca atestadas em trabalhos antropológicos anteriores. Assim, trago uma análise quanto ao contexto particular na região em que se tensionam as relações entre o turismo predatório, os efeitos da patrimonialização, os avanços da inserção de mineradoras de lítio e a preservação da vida e dos direitos de seus moradores. Neste intenso caldeirão de eventos, políticas e saberes, não pretendo trazer visões conclusivas quanto ao momento circunscrito, mas tratar das diferentes reverberações dos acontecimentos e alcançar provocações maiores quanto ao lugar das Ciências Sociais, suas ferramentas e proposições éticas em contextos de profundas controvérsias cosmopolíticas.