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Ponencia

Violências e desigualdades entre torcedores no futebol do Rio de Janeiro

Parte del Simposio:

SP.1: Haciendo antropología: Cruces y encuentros desde la experiencia de investigación etnográfica a nivel doctoral en América Latina y el Caribe

Ponentes

Raquel de Oliveira Sousa

UERJ

Neste trabalho analisarei as desigualdades presentes no ambiente dos estádios de futebol e as violências sofridas pelos torcedores do estado do Rio de Janeiro, no Brasil, especificamente no estádio do Maracanã. O trabalho possui como base a etnografia realizada com os operadores de segurança e justiça especializados na atuação em eventos de futebol, em especial o Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE), vinculado à Polícia Militar do Rio de Janeiro.
A escolha pela observação a partir do estádio do Maracanã se dá pela relevância histórica e social desse estádio que sediou duas copas do mundo. Outra motivação é devido a esse estádio ter sido criado para a inclusão de diversas classes sociais, apesar de manter as distinções de visibilidade e conforto do jogo (Monteiro, 2001). Entretanto, com o passar dos anos, para o recebimento dos eventos esportivos (Panamericano 2007, Copa das Confederações 2013, Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016), este cenário foi sendo remodelado ao seguir os padrões de modernização e “arenização”. Atualmente os estádios cariocas são “[…] microterritórios que contribuem, a seu modo, para ampliar e aprofundar os mecanismos de exclusão vigentes” (Mascarenhas, 2013).
A modernização dos estádios brasileiros está associada ao aumento do valor dos ingressos e uma série de alterações que afeta o policiamento nesse ambiente. Ao caminhar pelos diversos setores do estádio do Maracanã é notória a distinção da presença dos policiais do BEPE, assim como da segurança privada (conhecidos como steward). Em geral, quanto mais popular o setor do estádio, maior a presença dos agentes de segurança. Inclusive, os setores mais caros do estádio não constavam com a presença dos policiais em seu plano de ação (Sousa, 2021).
Foi um verdadeiro espanto a primeira vez que adentrei a área de acesso a estes espaços mais elitizados, dentro deste Maracanã já com claro perfil elitista. Há um belo espaço, com ambiente refrigerado e até com elevadores e escada rolante parecendo muito mais um Shopping Center do que um estádio de futebol. Encarecendo os ingressos e com uma política de preços muito alta dentro do estádio, configurando uma violência econômica para com os torcedores.
Este é apenas um dos exemplos em que das ações desiguais da segurança para com os torcedores populares, em especial os torcedores negros e periféricos. Vide a ocorrência de briga entre torcedores do Flamengo e Vasco em outubro desse ano, em uma estação de trem há 40km de distância do Maracanã. Na ocasião, torcedores que possuíam ingresso estavam sendo liberados e 11 supostos torcedores foram levados à delegacia. Dos 11, apenas um torcedor era branco, os outros 10 eram negros. Esse e outros fatos sociais necessitam de investigação e análise. Pois, com a utilização do discurso do combate à violência no futebol, desigualdades e desrespeito aos direitos dos torcedores são reverberados e aprofundados.