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Ponencia

“Tem alguém se alimentando da minha comida, não sou só eu, né?”: risco e práticas de autocuidado nas experiências de gravidez entre migrantes brasileiras no Canadá.

Parte del Simposio:

S.P. 75: Experiências de maternagem, práticas de cuidado e políticas de reprodução social na América Latina

Ponentes

Fernanda Loureiro Silva

Instituto de Medicina Social

Jane Russo

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Marina Nucci

IMS/ UERJ

Risco em saúde é construído com base em levantamentos epidemiológicos a partir dos quais
determinados comportamentos ou substâncias são associados a agravos para a saúde. No que se refere à reprodução, tais agravos podem atingir não só a pessoa gestante, mas especialmente o feto/bebê em formação. Neste trabalho buscaremos demonstrar como essas noções de risco/perigo se relacionam de modo inerente a concepções e valores em torno de
comportamentos desejáveis e indesejáveis e, em última instância, a um modelo de “boa mãe”.
Para tanto, utilizaremos a formulação proposta por Lorna Weir (2006) sobre a passagem do
limiar do nascimento para o limiar perinatal a partir do qual a gravidez é transformada em um
período de otimização da saúde das populações, antes mesmo do nascimento. Do mesmo modo, buscaremos fundamentar nossa apresentação na discussão de Alfonsina Robles (2015) sobre “sanitarização da gravidez” e de Ilana Lowy (2018) sobre os testes diagnósticos pré-natais, um “dispositivo tecnológico generificado” de monitoramento e gerenciamento de riscos que é moldado por princípios que compõem a ideia de uma “boa mãe”. Para este trabalho, apresentaremos parte dos resultados de um estudo etnográfico multi-situado que mapeou noções de risco associados a saúde materna e perinatal nos âmbitos global e local, bem como nas experiências situadas de mulheres migrantes brasileiras que engravidaram e tiveram filhos em Toronto/GTA, no Canadá, entre 2020-2022. Com base nos relatos de quinze participantes sobre suas trajetórias reprodutivas, analisamos o modo como essas mulheres percebiam e lidavam com riscos no planejamento da gestação, nas tentativas de concepção, na descoberta, confirmação e anúncio da gravidez e nos cuidados específicos adotados durante a gestação, especialmente naquilo que elas modificaram ou deixaram de fazer para ter um “estilo de vida saudável”. Com isso, buscamos explorar suas concepções de risco, bem como a forma como mudaram seus comportamentos e lidaram com seus medos e receios, procurando associar tais relatos a formas de entender e vivenciar a maternidade.