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Ponencia

DISCURSOS ECOLÓGICOS DE LIDERANÇAS INDÍGENAS: SOBRE A URGÊNCIA DE LEVÁ-LOS A SÉRIO

Parte del Simposio:

SP.53: Pasados presentes en un mundo en transición. Desafíos de las antropologías en torno a los pueblos indígenas

Ponentes

Gustavo Cunha Bezerra

Universidade Estadual da Paraíba

A utilização da virtude ecológica dos indígenas na luta pelos seus direitos, com o objetivo de mostrar ao opressor o quanto ele tem a aprender com os habitantes da floresta, é um tema recorrente nas manifestações de lideranças indígenas, dentre as quais Ailton Krenak merece destaque. No livro Ideias para adiar o fim do mundo, Krenak contrapõe o mundo civilizado às comunidades tradicionais (indígenas, ribeirinhos, quilombolas etc.) a fim de mostrar que a suposta superioridade racional do primeiro pressupõe que existe apenas uma forma de existência, uma verdade, enfim, apenas uma humanidade, e que esta se vê como não pertencente à natureza. O indígena lembra que, para muitas culturas, as montanhas, por exemplo, são consideradas como pessoas, que possuem parentescos e com as quais se estabelecem certas alianças. Ele então se questiona por que tais narrativas não cativam mais as pessoas, na medida em que estão sendo esquecidas e substituídas por uma “narrativa globalizante e superficial”. O absurdo da abstração civilizatória, segundo Krenak, retira a diversidade dos modo de existência e oferece apenas uma narrativa. A não separação entre humanidade e a terra permaneceu restrita ao grupo da “sub-humanidade bruta”, “rústica” e “orgânica”. Nesse grupo encontram-se os indígenas, que ainda resistem à insistente tentativa de “civilizá-los”, no sentido de incorporá-los a um todo homogêneo. Para Krenak, tal resistência se deu através da expansão da subjetividade desses povos, os quais, vendo impotentemente seus territórios serem devastados, procuram, ao menos, preservar suas cosmovisões. Mas a dinâmica do processo destrutivo dos ambientes naturais precisa excluir as cosmovisões que os personalizam, pois assim transformam esses lugares em “recursos” naturais. Dessa forma, a preservação das cosmovisões ameríndias, classificadas por Philippe Descola como animismo, poderia ajudar no adiamento do fim do mundo. A recusa da separação entre humanidade e natureza poderia servir como uma espécie de obstáculo à temerária destruição física do mundo, pois, segundo Viveiros de Castro, é a desvalorização metafísica do mundo que forma os agentes dessa destruição.