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Ponencia

Crianças cuidadoras: o lugar do território e aspectos da transmissão intergeracional

Parte del Simposio:

SP.50: Nuevos desafíos para la antropología de las infancias a partir de las investigaciones e intervenciones antropológicas sobre y con niñes en América Latina.

Ponentes

Juliana Lara

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Lucia Rabello de Castr

Este trabalho se debruça sobre o tema do cuidado praticado por crianças. Cotidianamente, crianças e adolescentes assumem o cuidado por outras crianças, avós, familiares doentes e pelo ambiente em que vivem, sendo esta uma prática presente e considerada natural em contextos urbanos, rurais e indígenas na América Latina. Embora o tema do cuidado praticado por crianças esteja cada vez mais sendo discutido na literatura dos estudos da infância, ainda se insere dentro de um campo incipiente no debate público. As crianças, especialmente por perspectivas psicológicas tradicionais, são aquelas que se encontram na posição de receber o cuidado e não de exercê-lo. Dessa forma, a pesquisa e discussão em torno do cuidado praticado pelas crianças propõe um deslocamento e reflexão acerca dessa perspectiva que acaba por legitimar a posição das crianças em uma única e exclusiva visão possível com o cuidado. A partir de um diálogo crítico ao desenvolvimentismo psicológico, a racionalidade instrumental e a colonialidade do saber, aproximou-se neste trabalho de perspectivas teóricas das ciências sociais como forma de pensar e situar a posição singular das crianças em relação às categorias de gênero, raça e classe social, assim como em referência ao território particular onde vivem. O trabalho submetido visa apresentar alguns dos resultados da pesquisa de doutorado da proponente acerca do tema do cuidado na infância. Buscou-se discutir a relação do cuidado praticado por crianças moradoras da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, em relação a dois eixos: do território/lugar onde vivem as crianças participantes e da transmissão intergeracional do cuidado no seio da família e da vizinhança local. Para tal, foi realizada uma pesquisa de campo de caráter etnográfico com crianças de 5 a 12 anos, moradoras de uma comunidade urbana de classe economicamente baixa do Rio de Janeiro e estudantes de uma escola pública municipal da cidade. A pesquisa ocorreu presencialmente, no ano de 2019, através da utilização do método da observação-participante e de forma virtual, durante todo o ano de 2020, em razão da pandemia do novo coronavírus, através de entrevistas semi-estruturadas realizadas por meio de dispositivos digitais. Nos resultados obtidos, apresenta-se, primeiramente, de que forma o lugar/território onde moram as crianças não fornece simplesmente um pano de fundo no qual as práticas de cuidado são desempenhadas e sim, faz parte da condição espacial de sociabilidade que produz o cuidado e é produzido por este. Em relação ao segundo eixo de investigação, os resultados apontam que muitas das práticas de cuidado assumidas pelas crianças tinham como exemplo e/ou endereçamento as suas mães e avós. Há uma obrigação filial baseada na lógica de reciprocidade que se destina não apenas à geração mais velha da família, como as avós e idosos, mas também às mães. Conclui-se que a pesquisa acerca do cuidado praticado por crianças se propõe a contribuir para a compreensão das infâncias e para a análise das relações sociais e de poder, das desigualdades sociais e das trocas econômicas e simbólicas presentes em diferentes realidades latino americanas.