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Ponencia

A astronomia do Noroeste amazônico e as mudanças climáticas: dos calendários tradicionais aos desafios socioambientais.

Parte del Simposio:

SP.49: Violencias y desigualdades en las relaciones cielo-tierra: la astronomía cultural como abordaje emergente de disputas cosmopolíticas

Ponentes

Walmir Thomazi Cardoso

Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HCTE/UFRJ)

Brasil

Entre povos tradicionais do Noroeste amazônico costuma ser voz corrente que as constelações astronômicas se relacionam aos períodos de enchentes e vazantes dos rios. As frequentes e cíclicas flutuações nos níveis dos rios da região são acompanhadas dos nascimentos e principalmente ocasos helíacos de constelações que operam como marcadores temporais. Existem associações entre o ocaso de asterismos e constelações com diferentes enchentes (invernos) entremeados por períodos mais secos (verões). Nas tradições de etnias indígenas – como as dos Tukano, Desana, Tuyuka, Bará e Miriti-tapuya, dentre outras –, a “queda” de determinada constelação no horizonte Oeste, após o ocaso solar, marca uma enchente com nome específico. Como exemplo, destacamos o caso da cabeça da Jararaca Aña, que se põe em meados de novembro, logo após o Sol. Esse evento é chamado de enchente da cabeça da jararaca. Depois de alguns dias ocorre a enchente do corpo da jararaca, finalizando por seu rabo. Nos curtos intervalos entre os invernos (enchentes) se dão pequenos verões, quando o rio retorna a níveis mais baixos. A constelação da Jararaca é sucedida pelo conjunto de estrelas que representa Pamõ, o Tatu, em Tukano. Passam-se alguns dias entre o ocaso dessas duas constelações, o que origina verões mais longos. O mesmo acontece entre as constelações que sucedem Pamõ, como o peixe Jacundá (Muha) e o Camarão (Dahsiu). As populações locais usam esses verões para a limpeza e preparação de terrenos, para o plantio e colheita ou ainda para exercer atividades tradicionais de caça e coleta. Essas informações são corroboradas por fontes históricas e trabalhos etnográficos de campo.
Existe uma implicação cotidiana na vida e sobrevivência desses grupos humanos com respeito a esses ciclos de invernos (enchentes) e verões (vazantes). Com os níveis dos rios mais altos é mais difícil pescar. Esse fato tem impacto direto na disponibilidade de alimentos para as comunidades indígenas. Rios mais baixos ou verões, facilitam parcialmente a pesca. No entanto, se o rio estiver muito baixo, os peixes podem ficar confinados em igarapés, com implicações ambientais desastrosas como a mortandade por asfixia. Com um suprimento limitado de proteína, o modo de vida tradicional característico, pouco a pouco, também vai sendo igualmente asfixiado. Ainda que pareça uma metáfora é precisamente isso que se constata. O calendário baseado nas constelações associadas com eventos ambientais, não só se torna descompassado com as experiências culturais desses grupos, mas também sem sentido para os indígenas que utilizam esses eventos como forma de organização ritual e cosmológica.
As mudanças climáticas globais e o desmatamento na Amazônia impõem um descolamento entre o ciclo de eventos do mundo natural e os ocasos das constelações – constatação presente em alguns estudos realizados no Noroeste amazônico. A percepção atual, de que as alterações ambientais produzidas por sociedades não indígenas interferiram nos ciclos dos calendários desses grupos tradicionais amazônicos, nos leva a uma encruzilhada que transcende as medidas de tempo. Mas, antes de tudo, impacta nas formas de organização do modo de vida dessas sociedades tradicionais e, no limite, na continuidade de suas existências.