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Ponencia

A acumulação desigual e os efeitos violentos nas jornadas globais da cocaína

Parte del Simposio:

SP.74: Desigualdades, ilegalismos y violencias: ¿cómo pensar el estado en esta encrucijada?

Ponentes

Isabela Vianna Pinho

Universidade Federal de São Carlos

A expansão dos mercados ilegais é tema emergente na literatura das Ciências Sociais latino-americana. A relação dessas economias com o conflito urbano também tem sido destacada, mas a produção empírica sobre a operação de tais mercados ainda é limitada. Ao levar em consideração a enorme pujança econômica desses mercados, sua transnacionalização e seus efeitos desiguais e violentos, que se concentram nas periferias, minha pesquisa de doutorado em andamento visa contribuir aos estudos empíricos sobre os mercados ilegais e a “violência urbana” no Brasil. Como objetivo, busco analisar como o dinheiro e a violência se distribuem socialmente no mercado ilegal e transnacional da cocaína. A pesquisa tem como pano de fundo a chegada e expansão das grandes facções brasileiras nas fronteiras e em portos, ampliando a escala de circulação das mercadorias, que consolidam circuitos globais entre o legal e o ilegal. Dentro desse cenário, o Brasil tornou-se um dos maiores protagonistas na cadeia transnacional de valor da cocaína. Ao longo dos anos, o país tem se destacado tanto no consumo quanto na distribuição nacional e internacional da droga, sendo um dos grandes importadores e exportadores mundiais. Inestimáveis quantidades de pasta base e de cloridrato de cocaína são importadas dos países produtores – Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela – ou do Paraguai, país de trânsito. Enquanto a pasta base é consumida sobretudo no mercado interno brasileiro em diferentes formas e misturas, transformada em crack ou em cocaína de qualidade mais baixa para ser comercializada no varejo em favelas e periferias; a maior parte do cloridrato, com alto grau de pureza e sem processamentos químicos no decorrer do transporte, é exportado por vias marítimas e aéreas para outros continentes, principalmente para a Europa. Assim, as regiões de fronteira com os países produtores e os portos são espaços estratégicos na cadeia da cocaína e são disputados por grupos criminais brasileiros. As maiores facções do país, PCC e CV, expandiram-se para esses pontos nevrálgicos da circulação de tal mercadoria, ocasionando conflitos entre/intra facções, e entre facções e forças de segurança do Estado. Com isso, milhares de mortes no país são contabilizadas todos os anos, ao mesmo tempo em que se acumula cada vez mais dinheiro proveniente dos mercados ilegais transnacionais. Nas “jornadas” do cloridrato e da pasta base, a violência e o risco que atingem os atores é desigual, bem como a acumulação de dinheiro. Aqui, busco apresentar parte da minha pesquisa com viés etnográfico no porto de Santos – o maior da América do Sul e que concentra mais da metade das apreensões anuais de cocaína no país – e em duas regiões de fronteira do Brasil com a Bolívia. A pesquisa leva em consideração os efeitos violentos aos operadores mais baixos desses mercados, que compõe um mesmo perfil (jovens, pretos e pardos, moradores de periferias). Essa violência é praticada muitas vezes pelo próprio Estado – exemplo da Operação Escudo na Baixada Santista nesse ano. De forma mais ampla, faço uma reflexão sobre as desigualdades em escala global com efeitos locais, sobretudo na América Latina.